quinta-feira, 2 de abril de 2026

A desvantagem de ser o segundo 2ª Parte

 Braz Melo*

Semana passada discorri sobre as dificuldades de ser a segunda cidade de um Estado, como é Dourados em relação a Mato Grosso do Sul.

E iniciei escrevendo sobre logística, que muitas vezes resolve para uns, mas é prejudicial para outros.

É o caso de Dourados, que foi muito prejudicada. E isso, depois de feito, é difícil de consertar.

Em 1994, fui eleito vice-governador do Dr. Wilson Barbosa Martins. E apesar de Dourados ter dado a maior vitória à nossa chapa, recebemos muito pouco para representar nossa região. Ficamos com uma secretaria adjunta da Educação, para a qual indicamos a professora Doraci de Moraes e como adjunto da secretaria estadual de Administração, o Alaor Azambuja.

Quando senti que o quadro de secretários já estava bem definido, resolvi pleitear o trabalho do Mercosul, um assunto novo e que ficava distante do Parque dos Poderes. Já tinha assistido de camarote quando foi a Vice com o Dr. George e sentia que este cargo deveria ficar distante do centro político do Governo.

Ser o segundo é muito difícil. Principalmente pra mim, que tinha saído da Prefeitura de Dourados dois anos atrás com índices elevados de aprovação. E que Dourados esperava muito mais de seu representante.

Aproveitei da assessoria do meu amigo Walter Guaritá, que conhecia bem o Paraguai e era amigo do Presidente Wasmosi, a quem convidamos para vir assistir a nossa posse no dia 1 de janeiro. Foi o único presidente de outro país a participar de uma solenidade como aquela dentre todas as posses do Brasil.

Na primeira semana do governo já fizemos uma comitiva para Assunção, onde fomos muito bem recebidos e acertamos algumas ideias para compartilharmos como vizinhos.

Dentre outras, a participação do Porto de Concepcion como porto livre para Mato Grosso do Sul. Era uma maneira de diminuir o custo do transporte de grãos de nossa região e desenvolver aquela região guarani. A ideia foi lançada, mas, outra vez, foi deixada de lado.

Nossa região perdeu muito. Principalmente Ponta Porã. Como representante do Governo no Mercosul, tivemos outros alcances, como a discussão do gasoduto vindo da Bolívia e o embrião da Rota Bioceânica. Foi importante nesse projeto, além do presidente Wasmosi, o então prefeito de Iquique, Jorge Quiroga.

Anos mais tarde, quando voltei à prefeitura para o segundo mandato, Dourados e Iquique se tornaram” Cidades Irmãs”.

Hoje em dia mudaram aquela rota, pois interesses políticos deixaram de aproveitar a ponte existente em Concepcion, atravessando o rio Paraguai e a rota toda asfaltada até Mariscal Estigarribia.

Mudaram de Campo Grande, Dourados e Ponta Porã, para Campo Grande, Maracaju, Porto Murtinho. Estão construindo uma ponte com quase mil metros, fazendo 220 km de asfalto no Chaco Paraguai, chegando em Mariscal Estigarribia.

Foi bom para o Paraguai, pois irá desenvolver aquela região inóspita guarani. Mas lembro que tem um ditado antigo que diz: “Todos os caminhos levam a Roma”.

Nossa região é muito mais forte do que imaginam. Os grãos colhidos em nossa região, com certeza irão pelo projeto inicial. E hoje, no trecho entrando na Argentina, ainda falta boa vontade dos governantes daquele país para entender e facilitar a passagem, principalmente entre Pozo Hondo e Salta.

Mas, voltando à nossa participação na administração: em abril de 1995, Dr. Wilson me chamou para uma conversa e me informou que iria viajar para o exterior e que eu assumiria o Governo do Estado por algumas semanas. E eu, já desiludido com o tratamento recebido pelos assessores do Governo, perguntei aonde eu iria receber as pessoas, pois passados quase quatro meses da gestão ainda não tinha sequer uma sala para ocupar. Naquele dia falei para ele, que sempre me tratou muito bem, mas que me sentia um peixe fora d’água e que voltaria para Dourados, onde eu era muito bem recebido.

No outro dia arrumaram uma sala para o vice-governador.

Respondi pelo Governo do Estado por três semanas e comecei a entender o que era ser o segundo: é como ser vice.

*É engenheiro civil, foi prefeito de Dourados por 2 mandatos e vice-governador

sábado, 28 de março de 2026

A Desvantagem de ser o segundo

                                           A Desvantagem de ser o segundo


 Braz Melo*

“Nessa longa estrada da vida

Vou correndo e não posso parar

Na esperança de ser campeão

Alcançando o primeiro lugar”

                                                                Música de Milionário e Zé Rico

Ninguém luta para ser o segundo. Todos brigam para ser o primeiro.

No caso de Dourados, o segundo município em população do Estado, tem sofrido muito por este posto.

Lembro que quando da divisão do antigo Mato Grosso éramos bem tratados pela capital, Cuiabá. Penso que porque Campo Grande era o segundo. E só mais tarde entendemos o que é ser o segundo.

Naquela época, Dourados tinha pouco mais de 100 mil habitantes e Campo Grande mais de 250.000.

Hoje, Campo Grande tem quase 1 milhão e Dourados 250 mil habitantes.

Mostro neste artigo porque Dourados perdeu o pique que tinha antes da divisão do Estado.

Além de ser a capital do Estado, onde fica toda estrutura governamental, chama para lá as decisões maiores que são tomadas. Durante anos recebeu infraestrutura necessária para o bom funcionamento de uma cidade.

Imagina Campo Grande ficar uma semana sem aeroporto? Seria o caos. Nós ficamos quatro anos sem ele. Quando precisávamos de viajar, tínhamos de ir para Ponta Porã ou para a capital de MS. 

Dourados era o polo, atendendo na área de serviços todo o sul de nosso Estado. Quando uma pessoa de Bela Vista precisasse ser atendida por um especialista, ela vinha para cá. Hoje, vai direto para Campo Grande.

Vou dar o exemplo na área de logística, de como fomos prejudicados.

Quando o último governador de Mato Grosso uno, Garcia Neto, soube da divisão do Estado e veio fazer o lançamento do asfaltamento da rodovia que liga Dourados a Nova Casa Verde, passando por dentro da Colônia Federal, Ivinhema e Nova Andradina, rodovia importante para o comércio de Dourados, mandou iniciar a obra por Nova Casa Verde, fazendo que Nova Andradina, que já usava o horário de São Paulo, deixasse de usar os serviços de Dourados e fosse ser atendido em Presidente Prudente  (SP) ou Campo Grande.

Feita a divisão, foi nomeado o primeiro governador do novo Estado, Harry Amorim Costa, que não teve tempo de executar obras. Preparou administrativamente o estado.

Logo depois, em 1979, em consenso político, foi nomeado governador do Estado, o então prefeito de Campo Grande, Marcelo Miranda Soares. Ficou pouco tempo no cargo.

Em 1980 foi nomeado o senador Pedro Pedrossian para administrar nosso Estado. Pedro asfaltou de Mundo Novo a Ponta Porã, o Guaira Porã, iniciando as obras a partir de Mundo Novo. Iguatemi e toda a população fronteiriça que usavam os serviços dos douradenses, começaram a frequentar o oeste do Paraná.

Wilson Barbosa Martins foi eleito o primeiro governador do Mato Grosso do Sul em 1982. Executou diversas obras, entre outras, asfaltou  de Maracaju e Sidrolândia para Campo Grande. Obra importante para aquela região, só que mais uma vez subtraindo o movimento de Dourados. Os clientes de nossos médicos e profissionais liberais foram trocados pelos da capital.

Marcelo Miranda é eleito governador em 1986 e executou diversas obras, dentre estas, asfaltou Naviraí a Ivinhema. As pessoas que sempre usavam Dourados como polo de serviços, começaram a ter outro caminho desviando de Dourados.

Em 1990, é eleito novamente Pedro Pedrossian para governar o Estado. Ninguém pode negar a importância do que ele trabalhou pelo Estado, mas não tendo mais o que rodear nossa cidade, asfaltou Itaporã a Douradina. Os irmãos de Itaporã não precisam passar por Dourados pra ir para Campo Grande.

Toda essa logística é importante para o Estado, porém prejudicou muito o desenvolvimento de nossa cidade, já que desviando de Dourados diminuiu bastante nossa receita.

E Dourados, que chegou a receber em 1991 mais de 11% do ICMS (Imposto de Circulação de Mercadoria e Serviços) hoje recebe pouco mais de 6%. Quase a metade dessa importante receita.

Imagina se as rodovias tivessem sido direcionadas para Dourados? Não teríamos perdido tanto recurso, como aconteceu.

Mas este exemplo é só na área de logística. Depois conto mais.

  • É engenheiro civil e foi prefeito de Dourados por dois mandatos

terça-feira, 17 de março de 2026

Conheça a história do Teatro Municipal de Dourados

Conheça a história do Teatro Municipal de Dourados 

Braz Melo* 


O Teatro Municipal de Dourados, finalmente, está passando por uma reforma completa na gestão do prefeito Marçal Filho. Após muitos anos fechado, esse importante espaço cultural volta a ganhar vida, colocando novamente nossa cidade em destaque no cenário artístico e cultural.

Inaugurado em abril de 1998, poucos conhecem a história por trás da sua criação.

Tudo começou em 1991, durante minha primeira gestão, quando fui procurado pelo Wilson Bussios, acompanhado do empresário Domingos Bertoncello (responsável pela construção do Shopping de Maringá- PR) que demonstrou interesse em investir em Dourados.

Após diversas conversas e ideias, surgiu uma proposta inovadora: realizar uma licitação oferecendo um terreno na avenida Marcelino Pires, com a contrapartida da construção de um teatro para a cidade. 

Inicialmente, o teatro seria construído junto ao shopping e havia a exigência de que fosse entregue antes mesmo do início das atividades comerciais.

A empresa vencedora da licitação foi a Cobel, de Campo Grande. Assim, conseguimos viabilizar a construção do Teatro Municipal sem custos diretos para a Prefeitura.

Posteriormente, já na gestão do prefeito Humberto Teixeira, foi tomada a decisão de alterar o local da obra para o Parque dos Ipês, uma escolha bastante acertada.

A Cobel enfrentou dificuldades na execução do shopping, por não possuir experiência nesse tipo de empreendimento, o que acabou atrasando a conclusão das obras. Mais tarde, o projeto do shopping foi repassado à empresa Ingá, segunda colocada na licitação e idealizadora da proposta inicial. O shopping foi inaugurado apenas em 2006, durante a gestão do prefeito Laerte Tetila. Quinze anos após a ideia inicial.

Em 1997 retornei à Prefeitura e, no ano seguinte, em abril de 1998, o Teatro Municipal foi finalmente inaugurado. A cerimônia contou com a presença do então governador Wilson Barbosa Martins e do presidente do Paraguai, Juan Carlos Wasmosy. Na mesma ocasião, também foi inaugurada a Praça República do Paraguai.

A primeira apresentação no palco do novo teatro foi do artista douradense Emanuel Marinho, seguida pela Orquestra Sinfônica do Paraguai.

Você sabia dessa história?


O autor é engenheiro civil e foi prefeito de Dourados (1989 a 1992 e de 1997 a 2000